Todas conhecemos aquele momento em que damos de caras com uma fotografia antiga nossa, de há dez anos. O olhar é o mesmo, o sorriso também, mas algo mudou no espírito do tempo: na altura, emagrecer rimava com listas de proibições, contagens ao grama e batidos engolidos de pé em frente ao lava-loiça. Hoje fala-se mais de prato, de ritmo, de sono, de movimento encaixado num dia já bem preenchido. Talvez já tenhas reparado: o discurso sobre emagrecimento parece estar a mudar de canal, e muitos profissionais observam este movimento. E, honestamente, esta viragem merece que paremos para pensar, porque toca muito mais a tua cabeça do que o teu frigorífico.

O que parece estar a perder terreno e o que parece estar a ganhar

O que parece estar a perder terreno é, em primeiro lugar, tudo aquilo que prometia resultados-relâmpago. As curas de primavera vendidas como depurativas, as listas de «zero» em cadeia — zero açúcar, zero gordura, zero hidratos —, os jejuns prolongados decididos sozinha depois de um vídeo visto às 23 horas, os batidos que substituem uma refeição inteira. Fórmulas espetaculares no papel, extenuantes ao fim de três semanas. Já as vimos passar, essas modas, e sabemos mais ou menos como acabam.

Vista de cima: prato colorido com legumes, leguminosas e cereais integrais, com o batido posto de lado

O que parece estar a ganhar, pelo contrário, é o quadro flexível: uma estrutura que se aguenta ao longo da semana sem nada proibir, o prato de inspiração mediterrânica, a regularidade, o sono, o movimento que se encaixa no dia a dia. Menos espetacular, é verdade. Mas muito mais sustentável numa terça-feira à noite de novembro, quando escurece às 17 horas e não apetece nada pesar courgettes!

Porque é que esta mudança de rumo parece estar a instalar-se

Os dados atuais sugerem que a restrição muito rígida é difícil de manter a longo prazo e que alimenta os ciclos de perda e recuperação — uns vai-e-vem pouco confortáveis, tanto para o corpo como para a cabeça. Não é uma intuição de balcão: a agência francesa de segurança sanitária (ANSES) já alertava, em 2010, para os riscos das práticas de emagrecimento restritivas seguidas sem acompanhamento. Por outras palavras, não é falta de força de vontade a quem desiste ao fim de algumas semanas — é o próprio quadro que é insustentável a longo prazo.

Jovem mulher sentada junto a uma janela, uma caneca de infusão entre as mãos, expressão tranquila

A isto junta-se um discurso público mais prudente. O peso depende de múltiplos fatores — o ambiente, o stresse, o sono, a genética, alguns medicamentos — e não apenas da vontade. Em consulta, esta nuance muda tudo: fala-se menos de desempenho individual e mais de terreno, de referências, de contexto. É menos vendedor, claro, mas bastante mais honesto.

O prato mediterrânico, versão flexível

É a parte mais bem documentada do tema, e é quase reconfortante. A dieta mediterrânica, avaliada em ensaios de prevenção, associa uma base vegetal abundante — legumes, fruta, leguminosas, cereais integrais, oleaginosas —, azeite, peixe, ovos, com um lugar mais comedido para a carne vermelha e os produtos ultraprocessados.

Frascos de vidro preparados para a semana, com legumes, leguminosas e cereais integrais

Na versão flexível, isto dá um prato para compor, em vez de um menu para recitar palavra por palavra. Escolhes os teus alimentos, os teus horários, a tua cozinha — mas a estrutura mantém-se: vegetais em volume, proteínas em cada refeição, gorduras de qualidade, hidratos de carbono de preferência integrais. Sem dogmas, apenas uma espinha dorsal.

Na prática: quatro referências em vez de dez proibições

A primeira é a base vegetal: um legume ou uma fruta em cada refeição, sem fixar um número mágico. A segunda, as proteínas — ovos, peixe, leguminosas, lacticínios, carne em quantidade razoável —, que ajudam a manter a saciedade sem pensar nisso o dia inteiro. Nas gorduras, mantêm-se o azeite, o óleo de colza, as nozes, o abacate: a gordura não é a inimiga — o excesso de ultraprocessados é que é mais problemático. E depois há aquela referência que ainda desorienta muita gente: nenhum alimento proibido. Decides uma frequência, não uma privação. Um bolo previsto lida-se melhor do que um bolo culpabilizado, convenhamos.

Jovem mulher a cortar legumes frescos numa tábua de madeira, numa cozinha luminosa

Acrescenta duas referências não alimentares que pesam mais do que se imagina: dormir o suficiente e mexer-se um pouco todos os dias. Caminhar, subir as escadas a pé já é movimento — não é preciso um programa de atleta para começar.

A flexibilidade não significa «tudo vale». Se detetares episódios de perda de controlo alimentar, vómitos, um medo intenso perante certos alimentos, ou se comeres claramente menos sem querer, fala com um profissional: médico de família, nutricionista, psicólogo. Estas situações exigem acompanhamento, não mais uma dieta.

O que a flexibilidade não promete

Sejamos francas: nenhum método garante um resultado, e o corpo não se pilota como um orçamento. O que o quadro flexível traz, sobretudo, é menos carga mental e mais constância — o que já é muito. Se estiveres a fazer um tratamento, se estiveres grávida, se viveres com uma doença crónica ou uma perturbação alimentar, não mudes nada sozinha: nestas situações, a opinião de um profissional de saúde é indispensável, e é ele que vai fazer o diagnóstico de um eventual problema.

Orçamento

Um acompanhamento ou umas ferramentas podem ajudar, mas também se pode começar sem gastar um cêntimo — e é, aliás, muitas vezes o mais sensato no início.

  • Consulta com nutricionista em consultório privado: em Portugal, é habitual rondar os 40 a 80 € por sessão, podendo ser mais caro em Lisboa, no Porto ou para uma primeira avaliação mais longa. Estas consultas não são comparticipadas pelo SNS, mas alguns seguros de saúde e subsistemas (como a ADSE) reembolsam algumas sessões por ano — confirma junto do teu.
  • Consulta médica (médico com formação em nutrição clínica, endocrinologista): em regime privado, costuma rondar os 50 a 130 €, consoante a especialidade, a região e o seguro. Feita pelo SNS, através do médico de família, o custo direto é tipicamente nulo ou reduzido a uma taxa moderadora (com isenções em vários casos).
  • Centros de saúde, hospitais e programas de exercício e saúde: custos mais baixos, por vezes gratuitos quando integrados num percurso de cuidados com referenciação médica.
  • Aplicações de acompanhamento alimentar: entre 0 e 15 € por mês. Úteis se gostas de referências numéricas; a evitar se a contagem te deixa ansiosa.
  • Aulas de culinária online, subscrições de receitas: muitas vezes entre 5 e 20 € por mês. E não te esqueças dos livros de culinária, que podes requisitar gratuitamente nas bibliotecas municipais.

Onde encontrar: consultório, hospital, centro de saúde, plataformas de teleconsulta, diretórios profissionais online. Se procurares um nutricionista, confirma a inscrição na Ordem dos Nutricionistas — a lista oficial está disponível no site da Ordem.

Está entendido: a tendência de emagrecimento deste outono não parece ser uma nova dieta, mas antes uma forma de arrumar as coisas numa ordem mais vivível — o prato colorido ao centro, as listas de proibições arrumadas na gaveta, e um pouco de autocompaixão acrescentado à receita.

Fontes