Há sempre alguém que, ao fim de alguns meses de tentativas, atira: «e se me dessem aquele tratamento que faz ovular?» Nos fóruns e nas conversas entre amigas, o nome circula como se fosse a solução quase mágica para engravidar depressa. Só que por trás dessa fama embelezada está um medicamento bem real, com indicações precisas, limites claros e um enquadramento médico que não é acessório nenhum.

Duas mulheres numa consulta, num gabinete luminoso, com uma pasta aberta e uma caneta em cima da secretária

O citrato de clomifeno, que conhecemos sobretudo pelos nomes Clomid ou Pergotime, é um indutor de ovulação comercializado desde 1967. A sua utilização original era bem delimitada: mulheres com infertilidade associada a anovulação, ou seja, ausência de ovulação ou ovulação muito irregular. E nesse caso concreto podia ser prescrito depois de uma série de exames destinados a identificar a causa do problema — porque tratar a ovulação quando a ovulação é justamente o nó da questão faz todo o sentido.

Onde a história começou a desalinhar

O problema é que, de conversa em conversa, o medicamento acabou por ser prescrito muito para além do que devia. Chegou às mãos de mulheres que, por vezes, nunca tinham feito os exames recomendados, simplesmente porque o pediam, empurradas pela pressa de engravidar e por tudo o que tinham ouvido sobre a sua alegada eficácia para «acelerar as coisas». Do outro lado da secretária, alguns médicos cederam ao pedido sem escavar o suficiente.

É assim tão grave? É, e a razão é simples: prescrever um indutor de ovulação sem avaliação prévia é tratar às cegas uma causa que não foi identificada. Enquanto o medicamento faz efeito sem apontar ao alvo certo, o diagnóstico verdadeiro — aquele que explicaria porque é que a gravidez não acontece — fica na sombra, e o tempo passa. Identificar um ciclo ausente é já apontar à indicação correta: ou seja, o diagnóstico prévio não é uma formalidade administrativa, é o coração do raciocínio clínico.

Jovem mulher de origem asiática a anotar as datas do ciclo num caderno pequeno, sentada à mesa junto a uma janela

Um indutor não faz tudo

Hoje, o Clomid já não está reservado apenas a mulheres com anovulação. Também pode ser equacionado para quem, depois de um ou dois insucessos, quer engravidar sem perder tempo. Há médicos que consideram este alargamento um erro, precisamente porque o travão à conceção pode estar noutro lugar que não a ovulação — e um indutor não levanta um obstáculo que está noutro caminho.

É aqui que vale a pena recordar uma evidência de que rapidamente nos esquecemos: o resto também conta. O descanso, uma alimentação regular, um pouco menos de pressão em cima dos ombros, uma rotina que deixe espaço ao corpo — tudo isso ajuda, à sua medida. O clomifeno pode realmente ajudar, e por vezes depressa, quando o problema é mesmo uma ovulação ausente. Mas não acelera uma gravidez cujo travão está noutro sítio, e é essa nuance que a fama do medicamento tende a apagar.

Jovem mulher com um carrapito baixo sentada no corredor luminoso de uma clínica, com uma pasta de documentos sobre os joelhos

O outro lado da moeda

Esquecemo-nos demasiadas vezes de que tomar Clomid tem riscos e efeitos secundários: alterações da visão, tonturas, dores de cabeça, problemas digestivos, insónia, depressão, alergias, aumento de peso… A lista não está aqui para assustar, mas para lembrar que um indutor de ovulação continua a ser um medicamento que mexe com o equilíbrio hormonal e não se toma como se fosse uma pastilha.

O clomifeno pode também aumentar o risco de gravidez múltipla e de gravidez ectópica — duas situações que têm de ser avaliadas com o médico prescritor antes de qualquer toma. Já quanto ao risco de aborto espontâneo, os dados disponíveis não permitem afirmar que este tratamento o aumente, e seria desonesto deixar pensar o contrário.

Na prática, fica com isto: um indutor de ovulação não é um produto que se escolhe como se escolhe um creme, é um tratamento que se integra numa avaliação. Antes de pensares nisso, fala com um profissional de saúde — e não te esqueças da parte que depende de ti: dormir, comer de forma regular e seres gentil contigo mesma durante estes meses de espera.

O tempo, esse convidado que não escolhemos

Há uma realidade que ninguém gosta de ouvir quando deseja um bebé: conceber pode levar tempo. A Organização Mundial da Saúde define a infertilidade como a ausência de gravidez após pelo menos doze meses de relações sexuais sem proteção. Doze meses podem parecer uma eternidade quando cada ciclo que passa se assemelha a um falhanço. E, no entanto, é esse o horizonte a partir do qual se começa a falar de infertilidade — não antes.

Estes indutores de ovulação só se dispensam com receita médica, tal como os restantes tratamentos de apoio à conceção. Vale por isso a pena fazer os exames necessários antes de os tomar, nem que seja para garantir que as dificuldades em engravidar não têm outra origem que não a ovulação. E se o caminho for mais longo do que previsto, sabe que não estás sozinha: há quem engravide sem contar, e há quem tenha de esperar com ansiedade e medo de não conseguir, porque foi assim que a natureza decidiu. As coisas boas às vezes fazem-se esperar.

Quanto custa

No papel, o Clomid e os outros indutores da ovulação costumam custar pouco: são medicamentos modestos, dispensados apenas com receita médica, e a comparticipação depende do produto e do percurso seguido — confirma com o teu médico ou na farmácia e consulta a informação do INFARMED. Na prática, é o acompanhamento que pesa no orçamento. Uma consulta de ginecologia no privado custa, em geral, entre 50 e 90 €, consoante o médico e a clínica; pelo SNS, o percurso passa pela referenciação do médico de família. A isto somam-se um eventual estudo hormonal e uma ecografia de monitorização. Ao longo de vários meses, um percurso de apoio à conceção representa um orçamento real, e é melhor informar-te sobre comparticipações e preços antes de avançar do que descobrir a fatura etapa a etapa.

Fontes