Já ouviste isto à beira da piscina ou numa esplanada: «eu bronzeio-me facilmente, não preciso de creme». Na altura, parece sorte. Na prática, não dura muito. O sol não se limita a ativar a melanina, o pigmento que escurece a tua pele: deixa uma marca cumulativa nas tuas células. É a isso que se chama capital solar — não é uma unidade que se possa medir, é mais uma imagem: a dose de UV recebida desde a infância. Cada queimadura solar consome uma parte. E essa parte não se recarrega.
O que se sabe e o que ainda falta saber
O que se sabe: as radiações ultravioleta são classificadas como cancerígenas para os seres humanos pelo Centro Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC/CIRC). Também aceleram o envelhecimento cutâneo, com manchas, rugas e perda de elasticidade associadas.
O que ainda não se sabe: não existe um limiar abaixo do qual o risco seja nulo. A relação entre uma determinada exposição e o risco individual continua difícil de quantificar, porque depende do teu fototipo, da tua idade no momento das exposições e de fatores genéticos.

A tua pele não reage toda da mesma maneira aos UV
Os dermatologistas classificam as peles em fototipos, do I ao VI. Uma pele morena ou escura está mais protegida pela sua melanina, mas isso não a dispensa de proteção: os cancros cutâneos também existem em peles escuras e são muitas vezes diagnosticados mais tarde. Na prática, retém isto: conhecer o teu fototipo e adaptar a proteção vale mais do que confiar no teu bronze.

Um sinal que muda de tamanho, forma ou cor, que dá comichão ou que sangra justifica uma consulta de dermatologia. Isto não é um diagnóstico, é um reflexo de acompanhamento.
Os gestos de prevenção que realmente importam
O primeiro reflexo não é o creme, é a sombra. Em Portugal continental, o índice UV atinge o valor mais alto entre as 12h e as 16h no verão; o IPMA publica-o diariamente e as campanhas da DGS assentam nesses dados.

Depois vêm as roupas: mangas compridas, chapéu de abas largas, óculos com marcação CE e filtro UV. Existem têxteis certificados UPF 50+, muito úteis no mar ou em altitude.
O protetor solar cobre o resto, ou seja, as zonas descobertas. Há dois pontos que contam mais do que todos os outros:
- a quantidade: os FPS são medidos com 2 mg de produto por cm², uma dose raramente aplicada. Para o rosto e o pescoço, conta dois traços de dedo; o mesmo para cada braço e cada perna;
- a renovação: a cada duas horas e após cada banho ou transpiração, mesmo com uma fórmula resistente à água.
Verifica o logótipo UVA com círculo: garante, segundo a recomendação europeia, uma proteção UVA de pelo menos um terço do FPS indicado. E tem em conta que um FPS 50 filtra cerca de 98 % dos UVB, nunca 100 %.
E os suplementos «solares»?
A ideia de uma cápsula que prepararia a pele para o sol circula muito. Os dados atuais sugerem prudência: a EFSA e a agência francesa Anses alertam para consumos elevados de betacaroteno, associados a um risco acrescido de cancro do pulmão em pessoas fumadoras ou expostas ao amianto. Nenhuma alegação do tipo «prepara a pele para o sol» é permitida na Europa. Se pensas recorrer a suplementação, fala com um profissional de saúde e nunca a consideres um substituto da proteção.
Se apanhaste uma queimadura solar
Sai do sol: é a medida que mais limita os danos. Fica à sombra, cobre a zona vermelha, bebe água com regularidade. Um emoliente sem perfume, guardado no frio, acalma. Evita os gelos colocados diretamente sobre a pele e os corticoides tópicos sem indicação médica.

Consulta um médico em caso de bolhas, febre, dores de cabeça, tonturas, ou se a queimadura cobrir uma grande área. Numa criança, o parecer médico é sistemático.
Depois da exposição: escolher os produtos
Para o pós-sol, um emoliente neutro, sem perfume nem álcool desnaturado, faz o trabalho — ainda mais verdade numa pele aquecida. Quanto à embalagem, os tubos de cartão ou os formatos recarregáveis reduzem a embalagem, e uma fórmula com certificação Cosmos Organic garante uma percentagem mínima de ingredientes de origem natural e biológica: o selo regula a composição, não a qualidade da proteção.

Verifica sobretudo o logótipo UVA e o prazo após abertura: depois do período indicado no frasco, a proteção anunciada deixa de estar garantida. E tem em conta o compromisso: uma fórmula biológica ou mineral mal aplicada protege menos do que um FPS 50 clássico bem espalhado.
Preços
- Protetor facial FPS 50 (50 ml): conta com cerca de 10 € a 25 € em superfícies comerciais ou parafarmácias, até 30 € para uma fórmula com certificação biológica.
- Leite ou spray FPS 50 (200 ml): de 12 € a 25 €.
- Pós-sol (200 ml): de 8 € a 20 €.
- Suplementos ditos «solares»: 10 € a 25 € por uma cura de um mês.
- Roupa anti-UV UPF 50+: de 30 € a 80 €.
- Óculos com filtro UV: de 15 € a 100 €; a marcação CE conta mais do que o preço.
- Consulta de dermatologia: no privado, os valores variam bastante; no SNS, com referenciação, aplica-se a taxa moderadora em vigor. Como referência, em França, o valor rondava os 30 €, com 70 % de comparticipação no percurso de cuidados, sem contar com os honorários extra.
O que faz variar o preço? A cidade e o ponto de venda (parafarmácia, superfície comercial, instituto, loja online), a gama, o formato e a escolha entre uma fórmula clássica ou certificada. Na roupa anti-UV, tudo depende do tecido e do corte: uma peça ampla e que cubra bastante protege muitas vezes melhor do que um modelo justo e muito técnico.
Fontes
- DGS, informação e campanhas de prevenção solar.
- IPMA, índice UV diário.
- EFSA e Anses, pareceres sobre betacaroteno em suplementos alimentares.
- IARC/CIRC, monografias sobre radiações ultravioleta.
- EFSA, parecer sobre betacaroteno.
- Institut national du cancer (França), ficha «Cancers de la peau».





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