Deves ter reparado: há uns anos, guardávamos o nome de um manequim porque não saía das capas. Hoje, fixamo-nos primeiro numa silhueta, num casting de que se fala antes da primeira aparição ou numa tomada de posição que vai além do desfile. Entre um desfile em Milão, uma campanha de perfume e um discurso sobre o impacto ambiental do têxtil, as estrelas das passerelles pesam tanto na cultura popular como nas vendas.

Jovem manequim sentada nos bastidores antes de um casting, rosto natural e luz suave
Nos bastidores, o casting tornou-se o primeiro desfile da estação

No outono de 2026, enquanto as coleções primavera-verão 2027 desfilavam em Nova Iorque, Londres, Milão e Paris, o casting tornou-se um espetáculo dentro do espetáculo: comentado, analisado e, por vezes, criticado antes da primeira passagem. É isto que conta hoje nas passerelles e explica porque este ofício já tem pouco a ver com o dos anos 2000.

Retrato de uma jovem de blazer bege num terraço ao fim do dia
Um rosto, uma presença: a nova regra do casting

Rostos descobertos longe dos escritórios das agências

O recrutamento já não passa obrigatoriamente pelos corredores das agências parisienses. Anok Yai, descoberta em 2017 no campus da Howard University, em Washington, tornou-se a primeira mulher negra a abrir um desfile da Prada desde Naomi Campbell, em 1997; desde então, encadeia campanhas de luxo e capas internacionais. Adut Akech nasceu no Sudão do Sul e chegou à Austrália depois de vários anos num campo de refugiados no Quénia; foi descoberta em 2016, mas a estreia internacional e o estatuto de rosto das casas mais prestigiadas só chegaram em 2017.

Jovem de trench camel vista numa rua de outono
Na rua, o primeiro casting acontece sem hora marcada

Outra trajetória que marcou: Alex Consani, primeira mulher transgénero consagrada manequim do ano nos Fashion Awards em dezembro de 2024, tornou-se em poucas estações uma presença obrigatória nas passerelles de Milão e Paris.

A silhueta como argumento de casting

A representação deixou de ser um complemento comercial: é uma expectativa. Silhuetas como as de Paloma Elsesser ou Precious Lee levaram para o universo do luxo corpos que durante muito tempo permaneceram invisíveis — e isso nota-se no corte das peças, não apenas nos discursos. Kaia Gerber, filha de Cindy Crawford, encarna por sua vez uma geração de manequins saídos de famílias célebres, os chamados «nepo babies», que se tornaram um debate recorrente a cada estação.

Silhueta plus size num fato de saia marfim bem cortado, na cabine
O corte avalia-se pela caída, não por uma ficha de medidas

O regresso dos rostos singulares

A moda adora quem regressa. Gemma Ward, a australiana com rosto de boneca, é o exemplo mais citado: descoberta adolescente num concurso televisivo que não venceu, foi musa da Prada e da Miu Miu antes de pôr a carreira entre parênteses. O seu regresso progressivo às passerelles, ao longo dos anos 2010 e 2020, lembra que um rosto singular pode sobreviver às estações.

Retrato aproximado de uma jovem manequim mestiça de rosto singular sobre fundo cinzento
Há rostos singulares que atravessam as estações sem nunca desaparecer

Devon Aoki pertence à mesma família de casos invulgares. Nascida em Nova Iorque em 1982, filha de pai japonês, fundador da cadeia de restaurantes Benihana, e de mãe criadora de joias, mede 1,68 m — uma anomalia num meio obcecado pelos centímetros. Rosto da Versace aos 16 anos, depois atriz em 2 Fast 2 Furious e Sin City, também ela regressou às passerelles após uma longa pausa.

Jovem de rosto singular encostada a uma escada de mármore
Voltar ao primeiro plano sem renegar o próprio rosto

Gisele Bündchen, a ícone que mudou de terreno

É impossível falar das passerelles sem ela. Gisele Bündchen, nascida em 1980 no sul do Brasil, numa família de origem alemã, foi descoberta aos 14 anos por um agente da Elite num centro comercial de São Paulo, antes de participar no concurso Elite Model Look. Lembras-te dos anos 2000? Contratos de perfume, campanhas de lingerie, desfiles — até se tornar um dos manequins mais bem pagos do mundo.

Frasco de perfume de vidro sobre uma base de pedra em estúdio
Do desfile às campanhas, uma ícone muda de terreno

Em 2015, deixou os desfiles, preferindo as campanhas, os seus projetos pessoais e o seu envolvimento ambiental. O livro que publicou em 2018 mostrou os bastidores de um ofício em que a aparência se negocia ao milímetro. Vinte anos depois, o seu nome continua sinónimo de uma época em que um manequim podia tornar-se uma marca só por si.

Amber Valletta, da passerelle ao compromisso

Amber Valletta começou aos 15 anos, levada pela mãe a uma agência em Tulsa, antes de rumar a Paris. Ícone dos anos 1990 e rosto de várias casas de luxo, conjugou campanhas e uma carreira de atriz, nomeadamente em A Sombra de um Passado, ao lado de Harrison Ford e Michelle Pfeiffer, e mais tarde em Hitch.

Jovem de blazer preto oversize num corredor de bastidores
Antes do desfile, o visual acerta-se nos corredores

Hoje, dedica a maior parte do tempo à moda responsável: cofundou uma plataforma dedicada a jovens marcas sustentáveis e intervém regularmente sobre a transparência das cadeias de abastecimento. O seu percurso resume uma mudança: um manequim já não é apenas um rosto, é também uma voz.

Jovem de vestido de linho numa duna sob luz dourada
Na duna, a luz dourada substitui os holofotes do desfile

Um ofício com novas regras

Duas décadas separam estas carreiras e, no entanto, tudo mudou. Os castings jogam-se tanto nas redes sociais como nos escritórios dos diretores artísticos, e alguns manequins assinam contratos antes mesmo de terem pisado uma passerelle.

Jovem a posar diante de um fundo cinzento durante um casting
O casting filma-se agora tanto como se fotografa

As agências têm de lidar com uma concorrência inesperada: manequins virtuais, gerados por computador, que algumas marcas usam nas suas campanhas. Em paralelo, a questão das condições de trabalho volta à mesa — ritmos, remuneração, proteção dos muito jovens. A verdadeira diferença em relação aos anos 2000? A informação circula, e o público está atento!

Como identificar os rostos de uma estação

  • Segue as contas das marcas e dos diretores de casting: as revelações costumam chegar lá antes das revistas.
  • Os desfiles são frequentemente transmitidos em direto e de forma gratuita, o suficiente para treinares o olho sem sair do sofá.
  • Repara em quem abre e quem fecha um desfile: são os dois lugares mais comentados e os que lançam mais carreiras.

Orçamento

Boa notícia: acompanhar os desfiles custa muitas vezes menos do que se imagina. As transmissões dos desfiles são amplamente acessíveis de forma gratuita nos sites das marcas e nas redes sociais. Na imprensa, conta com cerca de 3 a 12 € por uma revista de moda em quiosque, consoante o título e a espessura, e alguns euros por mês por uma assinatura digital — as fórmulas variam muito de título para título.

Se te apetecer inspirar-te nas passerelles para o teu próprio guarda-roupa, a segunda mão continua a ser a opção mais inteligente: de 5 a 30 € em lojas de segunda mão por uma peça básica ou por uma peça para ajustar, e já entre 20 e 150 € em lojas de consignação ou plataformas de segunda mão por uma peça de destaque de marca, consoante o material, a marca e o estado. Aliás, um look completo não precisa de ser caro para funcionar: três peças bem cortadas, uma textura forte e está feito.

Fontes

  • British Fashion Council — The Fashion Awards, categoria Model of the Year (edição de 2024).
  • Prada — arquivo dos desfiles femininos (abertura do desfile, 1997).

Os suplementos alimentares não substituem uma alimentação variada e equilibrada nem um estilo de vida saudável.