«E se eu passasse à hena para ficar loira?» A pergunta chega normalmente às 23 h, por mensagem, mesmo antes de uma compra por impulso. Antes de mais, diga-se: a hena não descolora nada, deposita. Tudo o que se lhe pode pedir decorre daí.

O que a hena faz, de facto

A hena é pó de folhas de Lawsonia inermis misturado com água morna até formar uma pasta com textura de iogurte grosso. Lá dentro está a lawsone, uma molécula que se liga à queratina e aí deposita a cor. Fica com o verbo: depositar. Sem creme oxidante, sem amoníaco, sem abrir a cutícula à força — logo, não há qualquer possibilidade de clarear. A hena não te faz passar de castanho a loiro, nem ganhar dois tons.

Mãos misturam pó de hena com água morna numa tigela de grés
A pasta de hena, com textura espessa pronta a depositar cor

O que ela sabe fazer? Aquecer uma cor, deixar reflexos que vão do acobreado ao acaju, cobrir o cabelo branco, deixar o cabelo macio. Tem fama de ser um tratamento que a pasta, por si só, nem sempre garante. Em troca, dura, e bem. É aqui que a coisa se complica: apagar uma hena numa sessão de coloração clássica é esperança a mais, e o clareamento futuro, uma lotaria.

A hena que não é hena

Procura «hena preta» online e encontras de tudo. Só que uma hena preta não existe na natureza: as folhas de lawsonia dão um verde-acinzentado na tigela e acobreado na cabeça, ponto final. As pós «pretas» ou «castanhas» são misturas — às vezes de índigo ou de cássia, às vezes de outra coisa qualquer. Algumas contêm parafenilenodiamina (PPD), um alergénio potente, ou sais metálicos que se dão mal com as colorações químicas aplicadas depois.

O gesto que te safa: a lista de ingredientes. Quanto mais curta, mais descansada ficas. Lawsonia inermis sozinha para o vermelho, nomes de plantas identificáveis para o resto. Um selo reconhecido, como Cosmos Organic, define regras para a composição e para a percentagem de ingredientes biológicos; não promete que a tua pele não vai reagir.

As «henas pretas» não são todas à base de plantas: algumas podem conter PPD. Composição ilegível? Segue em frente.

O teste de mecha, com o tempo de atuação indicado

O tom final depende da tua cor de partida, da porosidade das pontas, das colorações já aplicadas e do tempo de atuação. Por outras palavras: ninguém te pode garantir a nuance exata que vais obter. Daí o teste de mecha, o único juiz: corta uma mecha na parte de trás da cabeça, ata-a, aplica a mistura prevista, deixa atuar o tempo indicado, enxagua e seca. Depois sai da casa de banho — é à luz do dia, e não sob os focos do espelho, que a cor verdadeira se vê.

Uma mecha de cabelo com hena junto a um temporizador
O teste de mecha, cronómetro na mão, antes de qualquer aplicação

Segunda etapa, muitas vezes esquecida: o teste de alergia. Na prática, costuma recomendar-se fazer um teste de alergia cerca de 48 h antes, seguindo o folheto do produto; depois vê-se se provoca comichão ou vermelhidão. Na verdade, só te lembras disso no dia seguinte à aplicação. Faz o teste mesmo assim: uma reação à hena, por muito «natural» que seja, pode assustar. E se combinas hena com coloração química, pede a opinião a um cabeleireiro formado em colorações vegetais.

Cabelo branco, cabelo escuro, cabelo já pintado

Em cabelo branco, a hena não vai com meias medidas: colore com força, muitas vezes de um acobreado franco — exatamente o objetivo pretendido, ou a surpresa do século! Para um resultado mais castanho, associa-se a hena ao índigo; é aí que o jeito conta. E como a raiz branca volta a crescer sobre uma cor que não se altera, a manutenção regressa depressa: na prática, muitas vezes a cada três a seis semanas.

Cabelo escuro com raízes brancas e pontas acobreadas
Em cabelo branco, a hena colore com força e a raiz volta a notar-se depressa

Em cabelo escuro, conta com luz, não com uma transformação: reflexos quentes que se veem ao sol e nas fotos de esplanada. Em cabelo já pintado ou descolorado, é uma incógnita — a hena sobrepõe-se, acumula-se, e o clareamento futuro torna-se uma aposta arriscada. Em que campo estás?

Orçamento

Quanto ao pó, conta com cerca de 5 a 15 € por 100 g em lojas de produtos naturais, ervanárias ou online; uma aplicação num cabelo de comprimento médio costuma consumir entre 50 e 100 g. Junta luvas, uma tigela que não te importes de estragar e um pano velho: a hena mancha, e a tua toalha branca não te vai perdoar, ao contrário do teu jeans.

No salão, uma coloração vegetal custa normalmente entre 60 e 140 €, conforme o comprimento, a cidade e a gama — o preço sobe com as misturas de plantas e o tempo de atuação. É o preço da tranquilidade, e do diagnóstico que nenhum pó comprado à meia-noite te dá.

Uma mecha e paciência, uma secagem à luz do dia: o único investimento rentável da operação. A hena é um presente para quem gosta de acobreados e reflexos quentes; uma armadilha para quem espera clarear. Agora já sabes para que lado te virar.