A creatina serve o músculo, não o número da balança

O boião é minúsculo, o rótulo austero, e o nome cai mal quando a noite já vai longa. Ainda assim, a creatina é um dos suplementos mais bem estudados do mundo — muito mais do que os pós que prometem uma cintura de vespa. O que as mulheres que a começam a tomar vêm procurar não tem muitas vezes nada a ver com a balança: força e capacidade de recuperar sem ficarem três dias de rastos.

Uma molécula que não tem nada de exótico

O nosso organismo produz a sua própria creatina a partir de três aminoácidos e armazena-a sobretudo nos músculos, onde funciona como reserva de energia imediata. Também está presente na carne e no peixe: se comes proteínas animais, já a consomes, ainda que em menor quantidade.

Mulher jovem numa série pesada com barra num ginásio luminoso
Numa série pesada, a fosfocreatina esgota-se em poucos segundos

Um suplemento faz apenas uma coisa: encher um pouco mais o depósito. Na célula muscular, a creatina converte-se em fosfocreatina, uma pilha de uso instantâneo, solicitada num sprint, numa série pesada ou numa subida de escadas mais rápida do que seria razoável. Daí o vocabulário que a acompanha — força, potência, esforços breves — e a ausência da palavra «emagrecimento» nos estudos sérios. Nada, nos dados atuais, sustenta um efeito sobre a massa gorda.

O que se sabe e o que ainda não se sabe

Nos homens, a literatura é vasta. Nas mulheres, está a crescer, mas parte de longe: durante muito tempo, os protocolos foram realizados sobretudo em homens. Os dados atuais sugerem que os mecanismos são os mesmos — com uma nuance: como as reservas iniciais são muitas vezes mais baixas nas mulheres, isso leva a pensar que poderiam tirar pelo menos tantos benefícios. O condicional mantém-se.

Mulher jovem a alongar uma perna num tapete, com um rolo de massagem ao lado
Recuperação e dores musculares: os dados continuam ainda contrastantes

O que está melhor documentado continua a ser a associação a um treino de força: ganhos de força um pouco mais nítidos nos movimentos básicos, quando a toma acompanha semanas regulares de musculação. Na recuperação, os resultados são mais contrastados — alguns estudos relatam dores musculares menos marcadas ou marcadores de lesão muscular mais baixos, outros não encontram nada de claro. Não decidimos em vez dos investigadores, e ainda bem.

A balança, esse juiz severo

Mais vale dizê-lo já, porque é muitas vezes aí que o ânimo vacila: a creatina pode fazer subir o número, um quilo ou dois, geralmente nas primeiras semanas. Água, precisa-se de bom grado — e não é uma fuga. É atraída para dentro da célula muscular, não para os tecidos moles que nos preocupam ao espelho. O músculo enche-se, o tornozelo mantém-se calmo.

Balança de casa de banho e copo de água num chão claro, à luz da manhã
Um quilo ou dois de água no músculo, e a balança dispara

Por isso, se pesas cada grama na manhã de segunda-feira, é melhor saberes antes de abrires o boião. Mas se o objetivo é levantar um pouco mais de peso, correr um pouco mais depressa ou sofrer menos depois de um treino de pernas, esse quilo não é um fracasso: é o preço do depósito cheio.

O modo de utilização, sem complicações

A forma mais estudada é a creatina monohidratada: um pó discreto, quase sem sabor, para diluir em água, sumo ou iogurte. A versão micronizada dissolve-se melhor, o que não é nada acessório quando já se engoliu um grumo a mais. O momento da toma importa pouco; a regularidade conta muito. As referências mais citadas na literatura andam à volta de alguns gramas por dia, com ou sem fase de carga — esta satura as reservas mais depressa, ao preço de várias tomas diárias.

Mulher jovem a verter uma dose de creatina em pó num copo de água, na sua cozinha
Alguns gramas por dia, na água ou no iogurte, sem cerimónia

Os dias sem treino contam tanto como os outros: um depósito não se enche no sábado de manhã, mantém-se. E a água do dia a dia continua a ser a tua melhor aliada, mesmo que não faça propriamente sonhar. Quanto à dose exata e à oportunidade de começar, isso decide-se com um profissional de saúde, não com o vizinho do banco ao lado.

Na prática, lembra-te: a regularidade vale mais do que a dose espetacular, os dias de descanso também contam, e não te esqueças da garrafa de água. Em caso de doença renal, tratamento em curso, gravidez ou amamentação, fala com um profissional de saúde antes da primeira colher.

O que merece uma conversa, não uma opinião de balneário

Globalmente bem tolerada no adulto saudável, nas quantidades habitualmente utilizadas, a creatina não é inócua para toda a gente. Na mulher grávida ou a amamentar, os dados ainda faltam: na dúvida, abstém-te. Um rim frágil, um tratamento em curso, uma alimentação já muito rica em proteínas? Outras tantas situações a colocar na mesa de um médico ou de um nutricionista, não numa caixa de comentários.

Mulher jovem sentada a uma secretária, caderno fechado e copo de água à frente, numa consulta
Rim frágil, tratamento, gravidez: fala-se com um profissional

O resto parece-se com o que se diria de um treino: paciência, regularidade e um objetivo que não se lê na balança. Se, dentro de algumas semanas, levantares mais peso sem sentires que lutas contra o teu próprio corpo, a creatina terá feito o seu trabalho — o de um pequeno empurrão, nada mais.

Orçamento

Para a carteira, a creatina monohidratada continua a ser um dos suplementos mais baratos da prateleira: conta com cerca de 10 a 30 € pelo boião, consoante o formato (300 a 500 g), a forma — micronizada ou não — e o circuito de compra. Encontra-se em farmácias e parafarmácias, em lojas de desporto, por vezes em supermercados e nas lojas online; o melhor é comparar o preço por grama, porque a diferença joga-se sobretudo no formato e na marca. Um boião dura muito tempo, o que limita o custo mensal.

Fontes

Os suplementos alimentares não substituem uma alimentação variada e equilibrada nem um estilo de vida saudável.