Encontrei, no fundo de uma gaveta, um soutien rosa pó comprado em 2009. Na verdade, fez-me recuar no tempo como uma madeleine de Proust: uma época em que a lingerie hesitava entre o pó, as pequenas flores e as primeiras promessas de algodão biológico. Dezassete anos depois, o que resta destes desejos? Não testei cada peça mencionada na altura, mas cotejei estas tendências com o que se usa e vende hoje. E o resultado é mais interessante do que um simples revivalismo.

Tons pó e flores, sempre presentes
Em 2009, a marca Huit apostava em tons extraclaros, soutiens balconette cor de carne e pequenas flores creme. Este estilo vaporoso não desapareceu: mudou-se para as linhas nude, sem costuras, e para rendas muito finas. Hoje, o equivalente credível está do lado das marcas que propõem copas leves, matérias macias e tons de pele pensados para diferentes subtons.
Porque é que este estilo ainda nos diz alguma coisa? Porque não se vê debaixo de roupa clara e isso resolve boa parte das manhãs apressadas. A dica útil: experimenta o tom na tua pele, não apenas no cabide. Um nude demasiado rosado sob uma T-shirt branca nota-se logo.

Branco imaculado e inspiração retro
O branco imaculado, os laços, os folhos e as formas push-up faziam parte do cenário. Gostávamos da opacidade que tranquilizava e do lado feminino assumido. Em 2026, essa vontade de branco e de retro aparece nas cuecas de cintura alta, nos conjuntos de algodão e nos bordados discretos. A diferença está no conforto: menos saiotes que picam, mais matérias elásticas e cortes que seguram a silhueta sem apertar.

Se procuras este look, começa por um off-white em vez de um branco ótico. Favorece mais tons de pele e usa-se debaixo de roupa clara sem criar uma linha estranha no decote.


Étnico-chique e algodão biológico
A lingerie com bordados contrastantes e corte justo seduzia pela aparência fora do comum. A linha «Huit is Biotiful» prometia, na altura, algodão biológico ultramacio e muito simples. O nome exato já não existe, e ainda bem: o que realmente importa hoje não é a palavra «bio» no rótulo, mas a certificação. Procura certificações como GOTS ou Oeko-Tex, ou fibras recicladas.


Na prática, um algodão biológico sem certificação não te diz nada sobre o cultivo nem sobre os corantes utilizados. É menos glamoroso de escrever num blogue, mas bem mais útil na hora de tirar o cartão.
Princesse Tam Tam, fruta, areia e toile de Jouy
A Princesse Tam Tam continua uma marca conhecida pelos padrões e pelas cores. Em 2009, viam-se tons frutados, amarelo sorvete e flores azuis ao estilo toile de Jouy. Essas referências precisas saíram dos catálogos. O equivalente atual: estampados florais, tons de areia e rendas azul-noite, a descobrir em coleções cápsula, muitas vezes em séries pequenas.

O meu conselho: olha para a composição antes do padrão. Um estampado bonito sobre um poliéster de baixa qualidade dura menos do que uma malha simples e macia, mesmo que seja menos espetacular na fotografia. A textura não se vê no ecrã, e é ela que tens junto ao corpo o dia inteiro.


Simone Pérèle, Chantelle e Aubade, o requinte
Na Simone Pérèle, na Chantelle e na Aubade, a lingerie era elaborada: renda e tule, transparências, marfim sálvia, alças finas, bordados dourados sobre fundo taupe. Estas casas continuam a existir, mas as linhas Muse, Arty, Pure Beauty, Chantilly, Caprice ou Précieux Talisman já não são as referências atuais. O bom reflexo é procurar os equivalentes contemporâneos: renda Leavers, tule bordado, combinações, cores pó ou azul-celeste.


O requinte não depende do nome de uma coleção, mas de como a copa assenta e da qualidade dos acabamentos. Como distinguir numa loja? Olha para o interior da copa e para a solidez dos fechos, dois detalhes que dizem mais do que a etiqueta e o logótipo.

La Redoute e os preços baixos
A La Redoute tinha lingerie cheia de cor a preços baixos, incluindo um conjunto de cetim verde-esmeralda com um laço grande. Os modelos mudam a cada estação e, hoje, continuas a encontrar conjuntos coloridos e acessíveis. Confirma três coisas antes de finalizar: o tamanho, a composição e a política de devoluções.

Um preço baixo não justifica um soutien que sobe pelas costas. É o tipo de detalhe invisível numa fotografia e, ainda assim, decisivo no dia a dia, sobretudo quando passas o dia sentada.

O que fica e o que se esquece
Ficam os tons pó, o branco, as flores, os contrastes e a vontade de uma lingerie mais responsável. Esquecem-se as referências obsoletas, os preços de outra época e os cortes pensados para uma única morfologia. As tendências de 2009 tinham um charme indiscutível, mas muitas vezes faltava-lhes inclusão e transparência nas matérias.
Hoje, podemos ter o mesmo romantismo com mais conforto, mais tamanhos e mais informação sobre aquilo que compramos. E se não te apetecer renovar tudo? Começa por uma única peça que te assente mesmo bem: é esse gesto que faz a diferença, muito mais do que substituir uma gaveta inteira por impulso.
Antes de comprar um conjunto, mede o perímetro abaixo do peito e o perímetro do peito ao fim do dia. O bom reflexo: começar pelo tamanho das costas, não pela taça. Um 90B e um 85C podem parecer próximos no papel, mas não assentam da mesma forma. Se estiveres entre dois tamanhos, escolhe o que segura sem apertar.

Orçamento
Quanto ao preço, depende tudo da gama, da matéria e do acabamento. Conta com cerca de 10 a 30 € por um conjunto básico de algodão ou microfibra, 40 a 90 € por um conjunto de renda de gama média, e 100 a 200 € ou mais por uma peça assinada por uma casa como Simone Pérèle, Chantelle ou Aubade. O valor varia com a fineza da renda, o trabalho dos acabamentos, a reputação da marca e, por vezes, o tamanho — as taças fora dos tamanhos habituais são muitas vezes cobradas um pouco mais caro.

Onde comprar? Os hipermercados e as lojas online continuam a ser os mais baratos, com devoluções muitas vezes simples, mas com uma prova menos precisa. Numa loja especializada, numa perfumaria ou numa lingerie fina, pagas o aconselhamento e o ajuste, o que faz muita diferença numa peça de 90 €. Os saldos e os outlets baixam a fatura, desde que saibas o teu tamanho antes de entrar.
Fontes
- GOTS (Global Organic Textile Standard): global-standard.org
- OEKO-TEX: oeko-tex.com
- Simone Pérèle: simone-perele.com
- Chantelle: chantelle.com
- Aubade: aubade.com
- Princesse Tam Tam: princessetamtam.com
- La Redoute: laredoute.pt
- Internet Archive — versões arquivadas das coleções de 2009 (Huit, Princesse Tam Tam, La Redoute): web.archive.org





Comentários
A sua opinião conta: classifique o artigo, reaja e responda aos comentários.
Os comentários são moderados; os comentários assistidos por IA são assinalados. Os emoticons de texto (8-), :-), <3…) aparecem automaticamente como imagens.