«40 denier». O número está impresso em letras grandes na embalagem, promete calor e, na manhã de segunda-feira, na plataforma, não cumpre a promessa. Todas temos uns collants que nos traíram assim, sem má intenção, só por um mal-entendido. Este número não mede graus.

O número mede o fio, não os graus

O denier é uma unidade de espessura do fio: corresponde ao peso, em gramas, de 9 000 metros desse fio. Quanto mais alto o número, mais grosso é o fio e mais opaca fica a perna. Na prática, encontram-se muitas vezes collants de 20 denier muito transparentes, de 40 com opacidade média, de 70 a 80 com boa cobertura e, acima de 100 denier, uns collants quase tão espessos como uma meia de lã. Porque é que este número continua a ser a primeira referência na loja? Porque é grande, legível e dá a ilusão de uma escala.

Detalhe de uma perna com um collant 40 denier meio opaco à luz do dia
Aos 40 denier, o fio torna-se mais espesso sem ficar opaco

Mas o que aquece, então? A matéria-prima e a forma como é tricotada. Uma malha apertada retém o ar, e é esse ar que isola; uma malha larga deixa-o escapar. Um fio grosso de fibra sintética dá opacidade e uma perna muito lisa; para o calor, o que decide é a malha e o ar que ela retém, não apenas o tipo de fibra. O denier diz qual é a espessura do fio, mas não diz de que é feito.

O rótulo antes da embalagem

Por isso, vire a embalagem e leia a composição. Três famílias dividem a prateleira. A lã, quente e genuína, mas frágil: faz feltro na lavagem e desgasta-se onde as coxas roçam. O merino, uma lã muito fina, macia, que não pica e aquece sem volume, mas paga-se. Quanto à poliamida, é resistente e muitas vezes está lá para reforçar os calcanhares e as biqueiras. Ou seja, os collants quentes não são necessariamente os que mostram o número mais alto: muitas vezes são os que contêm realmente lã, numa malha suficientemente apertada.

E se o rótulo falar demais? Uns collants chamados «lã» podem levar só uma pequena percentagem; o resto garante solidez e opacidade. Olhe para as percentagens, por ordem: a primeira fibra indicada é a que está em maior quantidade. Se a composição for quase toda sintética, terá sobretudo opacidade: o calor dependerá da malha — ainda vai a tempo de voltar a pôr a embalagem no lugar.

O toque é que decide

Falta saber apalpar. Numa retrosaria, numa loja de moda ou numa loja que venda collants avulsos, pegue no par entre o polegar e o índice e esfregue suavemente: uma malha apertada é densa, um pouco firme, e volta ao lugar quando a estica. Estique-o depois contra a luz do dia. Se vir a sua mão com clareza através dele, a malha é larga; se a luz mal passar, tem nas mãos um verdadeiro par de collants de inverno.

Um par de collants segurado contra a luz em frente à janela de uma retrosaria
O teste da luz: a mão quase não se deve ver

O resto depende de três detalhes que se esquecem na caixa. Um cós liso que não enrola, um reforço discreto nos calcanhares e uma costura de entrepernas bem colocada: é isto que decide se o par aguenta a estação ou se revela frágil com o uso. E lembre-se de que o isolamento de um par de collants é o ar que ele retém; uma malha densa vale mais do que um fio grosso e mole.

O gesto certo na loja: vire a embalagem (composição), esfregue o par se estiver exposto avulso (densidade), estique-o contra a luz (opacidade). Três segundos e a dúvida desaparece!

Onde os encontrar

Onde encontrar um par que possa tocar antes de comprar? As retrosarias de bairro continuam a ser um bom sítio para procurar lã: há pares avulsos, dá para apalpar e a vendedora conhece bem as marcas, muitas vezes melhor do que um filtro de site. As lojas de moda e os concept stores têm uma seleção mais curta, muitas vezes em merino, com preços que sobem depressa. Quanto às marcas, procure collants cuja composição mencione realmente lã ou merino; as fichas de produto dão o detalhe, o que evita comprar às cegas.

Depois de encontrar o par, tudo se decide nos cuidados. Lavagem à mão ou num saco de rede, programa delicado, secagem na horizontal: a lã não gosta de centrifugação nem de radiador. Bem tratado, um par de collants de merino pode atravessar vários invernos, o que torna o preço um pouco menos doloroso.

Preço

Conte com entre 8 e 20 € para um par de collants opacos básicos de hipermercado ou de cadeia, entre 15 e 30 € para um par que contenha uma parte real de lã e entre 25 e 50 € para merino numa marca de collants. O salto de gama é claro: o merino faz muitas vezes duplicar a fatura, e os acabamentos muito finos fazem-na subir ainda mais. A cidade, o local de compra e a época também contam — uma retrosaria de bairro em Lisboa não pratica os mesmos preços que um site de marca no fim da estação.

Então, vale o preço? Se usar um par de collants cinco dias em cada sete, de outubro a março, o merino defende-se: calor real, fineza, um cair impecável por baixo de uma saia justa. Para dois domingos de inverno e uma noite por ano, um par de collants opacos de lã fará muito bem o serviço. A verdadeira má compra, nesta história, são uns collants que picam, que escorregam e que nunca se usam — esses saem caros, seja qual for o preço na etiqueta.