Terça-feira à noite, terceira loja do dia, dois batons na mão esquerda e aquela mesma hesitação de sempre. Qual deles contava melhor a estação? Ao fim de algum tempo, percebi que contavam os dois — só que com vozes diferentes.

Já há várias semanas que o corredor de beleza do outono se joga em dois campos que se ignoram de forma absoluta. De um lado, um maximalismo que assume tudo, cor incluída. Do outro, um depurado que não diz nada e faz muito. E tu, para que lado te inclinas?

O maximalismo sem desculpas

Cores que não pedem licença a ninguém. Sombras saturadas, blush aplicado em várias passagens, acabamentos brilhantes, texturas em creme que deixam marca no dedo. Nada de tímido, e é precisamente isso que gosto: esta direção não mente. A cor nota-se na pele e nota-se na paleta.

Uma mão de pele morena espalha um blush em creme terracota nas costas da mão, ao lado de duas amostras
O blush em creme aplicado com o dedo: uma camada fina e depois esbate-se

Uma vantagem bem real quando se encomenda online sem poder tocar no produto — e a verdadeira razão pela qual os testers destes expositores são sempre os mais maltratados do corredor. Queremos verificar, apalpar, espalhar. É normal.

Atenção, porém, a uma armadilha clássica: a cor salta à vista mal se abre o produto, mas aguenta um dia de trabalho? Não tenho resposta definitiva, e prefiro dizer-te isso mesmo. Nas texturas saturadas, o que faz a diferença continua a ser aplicar uma camada fina com o dedo e esbatê-la a seguir. Duas passagens leves valem mais do que um bloco espesso — mesmo que, convenhamos, a vontade de ir com tudo seja difícil de travar diante de um pote tão bonito.

O depurado, desta vez em versão refinada

Do outro lado, o campo oposto aposta na contenção: fórmulas mais curtas, tons transparentes, acabamentos acetinados, texturas fluidas que quase não se sentem na pele.

Jovem de perfil diante de uma janela aplica, com a ponta do dedo, uma sombra acetinada translúcida na pálpebra
Sobrepor em vez de empilhar: a cor aplica-se em véu, com a ponta do dedo

Não é um recuo, é antes outra forma de trabalhar a matéria: em vez de empilhar, sobrepõe-se. Uma base leve, um pouco de cor no côncavo da pálpebra, um lábio apenas tingido. O resultado nota-se de perto, não de longe — e há algo de muito elegante nesta discrição.

O senão, já imaginas qual é: estes produtos são muitas vezes mais caros ao grama, com quantidades mais pequenas. Se fores até ao fim, as contas fazem sentido sem problema. Se te esqueceres dele numa gaveta ao fim de três semanas, muito menos.

Onde os dois campos se cruzam

Há um punhado de peças que funcionam nas duas direções, e são essas que eu olharia em primeiro lugar se tivesse de gastar dinheiro com cabeça esta estação.

Pote de blush em creme em vidro, máscara de pestanas, bálsamo com cor em cartão e base fluida sobre uma prateleira de pedra
Blush em creme, máscara de volume, bálsamo com cor: os coringas dos dois campos

Um blush em creme, transparente se o tocar de leve com a ponta dos dedos, denso se o aplicar com o dedo inteiro. Uma máscara de volume: chega para mudar mesmo uma cara, seja qual for a tendência. Um bálsamo com cor, perfeito nas manhãs de correr, decente numa boca mais trabalhada. Uma base fina, que deixa passar a cor quando a usas e o grão da pele quando não usas nada.

São básicos, não peças de afirmação — e é exatamente isso que os torna rentáveis num guarda-roupa de maquilhagem. Tiram-se da gaveta, usam-se até ao fim, voltam a comprar-se. É o tipo de peça de que nunca te arrependes.

Uma nota sobre os critérios, porque contam tanto como o tom. O formato sólido e o recarregável estão a ganhar terreno nestas categorias: sombras compactas, bálsamos em cartão, estojos de vidro que se voltam a encher. Os selos Cosmos Organic ou Ecocert garantem uma percentagem mínima de ingredientes de origem natural e um caderno de encargos sobre os processos de fabrico; não garantem a fixação nem a eficácia — isso avalia-se na tua pele. E nem todas as recargas valem o mesmo: uma recarga de plástico dentro de um estojo que abandonas ao fim de um ano não resolve grande coisa. Se uma máscara de pestanas convencional te assenta melhor, paciência para a vertente ecológica — o produto que acabas é sempre mais responsável do que aquele que deixas de lado.

Três perguntas em frente ao tester, em menos de um minuto: este tom combina com pelo menos três peças que já tenho? Consigo aplicá-lo em cinco minutos numa manhã de terça-feira? Ainda o vou usar em fevereiro? Dois «sim» em três, podes pensar nisso a sério. Um só, volta a pô-lo no lugar.

Jovem de casaco, na entrada de casa, aplica um bálsamo com cor com a ponta do dedo antes de sair
Três minutos entre a porta e o espelho: o bálsamo com cor faz o trabalho

Orçamento

Conta com cerca de 12 a 30 € por um blush em creme em grande superfície ou em perfumaria, e mais entre 30 e 45 € numa marca de luxo. Uma máscara de volume fica muitas vezes entre 10 e 35 €, um bálsamo com cor entre 8 e 30 €, uma base leve entre 15 e 45 €.

Estas faixas mexem-se bastante: o centro da cidade não pratica os preços do hipermercado, a quantidade muda a conta ao grama, e os formatos sólidos ou recarregáveis pagam-se por vezes um pouco mais caros na primeira compra. Onde os encontras? Grande superfície e perfumaria para os clássicos, farmácia e parafarmácia para as fórmulas curtas, marcas independentes online ou em loja para o resto. As recargas costumam ser mais baratas do que o recipiente completo, desde que a marca mantenha o mesmo estojo ao longo do tempo — o que nem sempre está garantido.

Como escolher conforme o teu estilo

Maximalismo e depurado não se opõem realmente: respondem a duas vontades, e podes ter os dois na tua mala.

Se a tua maquilhagem se faz em três minutos entre a porta e o espelho da entrada, o depurado é o teu campo. Se gostas do momento em que te sentas em frente ao espelho, música bem alta e dez minutos só para ti, o maximalismo vai falar-te mais alto.

Uma última coisa, válida para os dois lados: a textura conta mais do que a cor. Um tom saturado mal formulado, que puxa ou se acumula nas pregas, não vai fazer melhor figura do que um nude bem pensado. Antes de cederes a um nome ou a uma embalagem bonita, passa o produto nas costas da mão e espera trinta segundos. A tua pele responde mais depressa do que qualquer discurso de vendas.

O veredicto da Chloé: esta estação, escolhe uma direção, mas guarda uma peça do campo oposto. É muitas vezes aí que nascem os melhores looks.