Já andas a pensar nisto há algum tempo — ou talvez estejas a aguentar há alguns dias sem acender um cigarro? Em qualquer dos casos, o que vem a seguir é para ti. Porquê insistir? Porque os benefícios começam muito antes do que se costuma imaginar. Aqui não há lições nem promessas vazias: apenas o que os dados atuais sugerem e o que isso muda num dia normal.

Jovem mulher a cheirar ervas frescas e limão numa cozinha luminosa

Um risco que pesa sobre todo o corpo

Comecemos pelo que se sabe e não é pouco: o tabaco continua a ser a principal causa de morte evitável em França. A Santé publique France atribui-lhe cerca de 75 000 mortes por ano, e o Institut national du cancer recorda que 80 a 90% dos cancros do pulmão estão ligados ao tabagismo. Ficam os números. Mas antes do diagnóstico há o dia a dia — e é talvez aí que isto te diz mais.

Jovem mulher a fazer uma pausa no topo de umas escadas exteriores, com falta de ar

O cansaço no topo das escadas, a tosse que se instala sem aviso, a garganta irritada ao acordar que atribuímos ao ar condicionado ou a uma noite curta... São pequenos sinais que o corpo envia muito antes de um médico lhes dar nome. O coração também sofre, e não é força de expressão: um cigarro faz subir a frequência cardíaca e a tensão arterial durante vários minutos, e o efeito repete-se a cada cigarro do dia. Os dados atuais sugerem que este risco começa a recuar logo nas primeiras semanas e diminui para cerca de metade depois de um ano sem fumar.

E o cancro da mama, tantas vezes mencionado? A ligação existe, mas é mais modesta do que no pulmão e depende da idade e da duração do tabagismo. Não é o principal fator de risco — os antecedentes familiares e o álcool têm mais peso. Isso não retira interesse a deixar de fumar: menos cigarros são menos riscos acumulados. Não se põe um risco contra o outro; somam-se os benefícios.

O que recuperas e a que ritmo

É provavelmente a parte mais encorajadora e merece uma pausa. Logo nos primeiros dias, o corpo recomeça a funcionar sem fazer barulho.

Conta 48 a 72 horas para o paladar e o olfato começarem a voltar — o suficiente para redescobrir sabores que tinhas esquecido. Depois, um ano após deixares de fumar, o risco de enfarte é praticamente reduzido a metade, o que não é pouco. Aos cinco anos, o risco de acidente vascular cerebral aproxima-se do de uma pessoa que nunca fumou. Aos dez anos, o risco de cancro do pulmão diminui cerca de metade. E aos quinze anos, o risco cardiovascular aproxima-se do de um não fumador.

Todos os anos contam, e nenhum se perde. Mesmo que voltes a fumar, mesmo que demores, o importante não é a perfeição — é a direção.

A cessação tabágica não se resume a força de vontade. É um ponto em que se insiste muitas vezes, e não por acaso: os substitutos nicotínicos (adesivos, pastilhas elásticas, pastilhas e spray) aumentam claramente as hipóteses de sucesso. Em França, são comparticipados a 65% com receita médica. Em Portugal, o preço, a comparticipação e a necessidade de receita variam consoante o produto; confirma na farmácia ou com o médico. Um profissional de saúde pode ajudar-te a escolher a forma e a dosagem. Em França, o Tabac Info Service, através do 39 89, oferece acompanhamento; a chamada pode ser cobrada. Em Portugal, podes começar por falar com o teu médico de família ou com um farmacêutico sobre as consultas de cessação tabágica disponíveis no SNS.

Pele, boca, dentes

Fala-se muito do pulmão, mas o tabaco também deixa marcas bem visíveis, por vezes mais incómodas no dia a dia. Os dentes amarelecem, a gengivite e a periodontite espreitam, e o mau hálito persistente acompanha discretamente cada cigarro. Não é o detalhe mais glamoroso, concordamos, mas é bem real.

Na pele também não há grandes motivos de festa: rugas mais precoces, tom baço, microcirculação cutânea afetada. Boa notícia: estes efeitos não são todos reversíveis, mas a maioria atenua-se claramente quando paras de fumar. A tez recupera luminosidade e o sorriso fica mais claro. Um pequeno empurrão nada desprezível para quem se preocupa com a imagem.

Retrato de perto de uma jovem de tez fresca e sorriso natural

Fertilidade, gravidez, contraceção

Eis um capítulo de que se fala menos, mas que merece toda a tua atenção. Fumar diminui a fertilidade tanto em mulheres como em homens e aumenta o tempo necessário para conceber. Durante a gravidez, o tabaco aumenta, entre outros riscos, o risco de aborto espontâneo, atraso de crescimento e baixo peso à nascença.

E na contraceção? Um ponto importante se tomas uma pílula estroprogestativa: associada ao tabaco, aumenta o risco de coágulos sanguíneos, sobretudo depois dos 35 anos. Nesta situação, vale a pena falar rapidamente com um profissional de saúde — médico ou enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica — para ajustar a contraceção e definir um acompanhamento adequado.

Custo no bolso

Um maço de 20 cigarros custa cerca de 13 € em França. A um maço por dia, isso representa cerca de 4 700 € por ano — o suficiente para financiar um projeto a sério, e não dos pequenos. Faz as contas: dá que pensar. Em Portugal, o preço varia consoante a marca e o ponto de venda; usa o valor que pagas hoje para perceber quanto pouparias.

Quanto ao acompanhamento, os custos mantêm-se modestos. Em França, os substitutos nicotínicos custam geralmente entre 10 e 30 € por caixa, consoante a forma (adesivo, pastilha elástica, pastilha ou spray) e a dosagem, e a Assurance Maladie comparticipa parte com receita. Uma consulta de medicina geral no setor 1 é comparticipada a 70%; no setor 2, os preços podem ser mais elevados, por isso informa-te antes de marcar. Em Portugal, os substitutos compram-se em farmácias e o custo depende do produto e da eventual comparticipação; fala com o médico ou farmacêutico para saberes o que se aplica ao teu caso.

Existem acompanhamentos, felizmente: em França, o Tabac Info Service, as consultas de tabacologia hospitalares e a operação «Mois sans tabac». As consultas de tabacologia hospitalares são consultas médicas comparticipadas pela Assurance Maladie, com possível encargo restante conforme a tua situação e o teu seguro complementar de saúde — mais uma vez, informa-te sobre as condições. Em Portugal, procura informações sobre consultas de cessação tabágica no SNS e junto do teu centro de saúde; a DGS e o SNS disponibilizam orientação.

Na prática, se queres pôr todas as hipóteses do teu lado, pede conselho a um profissional de saúde: ajudar-te-á a encontrar a solução mais adequada à tua situação, sem julgamentos e ao teu ritmo. E se tiveres de reter apenas uma coisa deste artigo, retém esta: os benefícios começam muito antes do que se imagina. As primeiras 48 horas já são uma vitória.

Fontes

As fontes francesas são citadas para os dados sobre França mencionados no texto.

Os suplementos alimentares não substituem uma alimentação variada e equilibrada nem um estilo de vida saudável.